Ataque à decisão de relaxamento da prisão em flagrante. Flagrante ilegal. Invasão de domicílio.
Tribunal de Justiça de São Paulo - TJSP.
*RECURSO EM SENTIDO ESTRITO - Ataque à decisão de relaxamento da prisão em flagrante - Flagrante ilegal - Invasão de domicílio, à noite, sem indícios de existência de flagrante - Decisão mantida - Recurso improvido - (voto nº 8807)*
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Recurso Em Sentido Estrito nº 990.09.332009-6, da Comarca de Araraquara, em que é recorrente MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO sendo recorrido AMANDA KELY TEIXEIRA.
ACORDAM, em 16ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "NEGARAM PROVIMENTO AO RECURSO. V. U.", de conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão.
O julgamento teve a participação dos Desembargadores NEWTON NEVES (Presidente), ALMEIDA TOLEDO E PEDRO MENIN.
São Paulo, 04 de maio de 2010.
NEWTON NEVES
PRESIDENTE E RELATOR
VOTO Nº 8807
RESE Nº 990.09.332.009-6
COMARCA: ARARAQUARA
RECORRENTE: MINISTÉRIO PÚBLICO
RECORRIDA: AMANDA KELY TEIXEIRA
Trata-se de recurso em sentido estrito contra a r. decisão de fls. 54 que, ao analisar comunicação de prisão em flagrante, relaxou a prisão da recorrida, sob o fundamento de que encetada para a investigação de noticia anônima e dada mediante invasão de domicilio, em período noturno.
Por razões de fls. 03/08, sustenta a d. Promotoria de Justiça o desacerto da r. decisão. Alega, em síntese, que os policiais não invadiram a residência da recorrida, não se sabendo se convidados por Amanda a ingressar no local. Sustenta que é dispensada a prévia observância das atividades no local, sendo exigida a campana apenas aos casos de cumprimento de busca e apreensão. Bate-se, ainda, que a noticia anônima que ensejou a diligência não macula o ato de ilegalidade, inexistindo concreta suspeita sobre os agentes, que efetuaram o procedimento autorizados por lei.
Pede o provimento do recurso, com a cassação da decisão atacada e a prisão da recorrida para que responda presa o processo.
Recurso processado e respondido, com manutenção da r. decisão (fls. 39/43 e 57).
A Douta Procuradoria Geral de Justiça opinou pelo provimento do recurso (fls. 41/44) .
É o relatório.
O recurso não comporta provimento.
Da leitura da cópia dos autos policiais e da r. decisão atacada, verifica-se que a recorrida foi presa em flagrante pelo cometimento do crime de tráfico ilícito de entorpecentes porque, no dia 02 de agosto de 2009, às 19h13min, mantinha em depósito e guardava, para fins de mercancia, 19 pedras de crack, substância entorpecente que causa dependência física e psíquica, sem autorização e em desacordo com determinação legal ou regulamentar.
É dos autos que policiais militares foram informados da prática de tráfico ilegal de drogas na residência da recorrida.
Para lá se dirigiram e encontraram no interior da residência a droga apreendida, que estava no interior de gaveta de uma cômoda.
Comunicado o flagrante ao Juízo, pela decisão ora alvejada, o d. Magistrado relaxou a prisão em flagrante de Amanda, apontando a ilegalidade do flagrante porque os policiais invadiram a residência, sem indícios robustos do tráfico noticiado anonimamente, e sem mandado de busca e apreensão.
Fundamentou ainda no fato de não ser autorizada a invasão de residência, no período noturno, para revista e, uma vez encetada a diligência "... ou os agentes encontrariam algo que permitisse a prisão da indiciada, ou estariam expostos a conseqüências graves, o que, por si só, enfraquece o valor das informações por eles prestadas. "
Da atenta leitura dos autos sob o sereno prisma dos requisitos da prisão em flagrante, pelo meu voto, o recurso não merece provimento.
Busca a Promotoria de Justiça desconstruir os fundamentos do relaxamento da prisão em flagrante, fazendo prevalecer a legalidade do flagrante.
Sem razão, contudo.
Reservada a análise do mérito da imputação ao procedimento adequado, já que não concluída a fase inquisitiva, ausente oferecimento e recebimento de inicial acusatória, pelo contido no instrumento recursal, cinge-se a análise da presença, ou não, da legalidade da prisão como efetuada.
E respeitados doutos entendimentos em sentido contrário, merece prevalecer o acertado reconhecimento da ilegalidade na prisão, da maneira como foi efetuada.
Incumbe ao Poder Judiciário, quando comunicado da prisão em flagrante, analisar a legalidade do ato policial.
E está o agente policial absolutamente impedido de efetuar a prisão em situações em que há expressa vedação legal, o que é o caso dos autos.
A prisão como efetuada ofendeu o disposto no artigo 5º , inciso XI, da Constituição Federal, pois se deu mediante violação de domicilio.
E da estrita particularidade do caso dos autos, não se encontra a ação policial respaldada na exceção permissiva constitucional de ingresso em domicilio, no período noturno, pelos agentes do Estado, consistente na ocorrência de flagrante - permanente ao delito como capitulado - já que viciada de ilegalidade em sua origem.
Não há nos autos policiais, como bem frisou o d. Juízo, informações robustas, de fonte idônea, acerca da prática do ilícito no local.
E tal ação, ainda que independente fosse da campana, se deu mediante conduta arbitrária, entendendo-se a arbitrariedade em seu conceito gramatical, como avesso à lei, já que os agentes, respaldados apenas na afirmação de que "receberam notícia anônima do crime" invadiram a residência em período noturno.
Também é arbitrária a conduta no sentido jurídico, uma vez poder o agente público, no caso o servidor público policial, pelo ato da prisão, agir apenas de modo discricionário, sempre obedecendo os limites legais.
Não fizeram. Foram ao local e invadiram a residência da vitima, não constando nos autos policiais a descrição da maneira com que tiveram acesso ao interior da residência. Não se tratava de perseguição, tampouco foi a ação calcada em fidedigna noticia de prática ilícita.
Além disso, como sabido, incumbe às autoridades policiais investigar fatos - não pessoas. Inadmitida, assim, a invasão de domicilio para a devassa dos bens e revista dos moradores, sem precedente justa causa ao ato.
Assim, e pela estrita particularidade do caso dos autos, de rigor a manutenção da decisão atacada, relegando-se à acusação, acaso entenda ser o caso, oferecer a inicial acusatória ao fim da fase administrativa e, acaso recebida a peça inicial, provar as acusações no curso da instrução processual.
Do exposto, nega-se provimento ao recurso.
JURID - Ataque à decisão de relaxamento da prisão em flagrante. [29/06/10] - Jurisprudência
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